ConceitoInvest: Juro real elevado é o preço a ser pago pela deterioração das expectativas

Em meio a truques de ilusionismo tributário e campanha eleitoral antecipada, Banco Central responde com mais juros.

Por: Hudson Bessa

Na última quarta-feira (16/03), foi dia de super quarta, ou seja, na mesma data COPOM (Comitê de Política Monetária) do Banco Central do Brasil e seu congênere americano, o Federal Open Market Comitte (FOMC), se reuniram para fixar a taxa básica de juros.

Nos EUA o FED elevou a taxa em 0,25 pontos percentuais, o primeiro aumento desde 2018, enquanto no Brasil a taxa foi elevada pela nona vez consecutiva. Desde janeiro do ano passado foram 9,75 pontos percentuais de aumento da Selic, que saiu de 2% a.a. para os atuais 11,75% a.a.

Os aumentos de taxas de juros ao redor do globo são uma realidade do mundo pós COVID-19. Os pacotes fiscais e de liquidez orquestrados para combater os efeitos nefastos sobre renda e emprego atingiram seus objetivos ao reanimar a demanda agregada e recuperar as economias. Contudo, o desarranjo das cadeias globais de produção impediu que a oferta reagisse na mesma velocidade, dando origem a um processo inflacionário crônico. Nos EUA a inflação em doze meses vem há meses em patamar superior a 6% a.a. e no Brasil já ultrapassa os 10% a.a.

No Brasil, porém, os problemas foram amplificados por uma frágil situação fiscal, combate cambaleante ao coronavírus, crise hídrica e uma sucessão de crises políticas e de gestão. Não bastasse tudo isso, a guerra Rússia e Ucrânia acrescentou mais turbulência à nossa combalida economia.

Diferentemente de outros países, o Brasil iniciou seu ciclo de aumento de juros bem antes, e em situação econômica menos favorável, ou até adversa. Para efeito de comparação, segundo o FMI, no triênio 2020-2022 os EUA devem crescer 6%, média anual de 1,9%, e o Brasil 1,2%, média anual de 0,4%. Ou seja, o Brasil iniciou seu ciclo de alta de juros em meio a uma recuperação mambembe.

Desta perspectiva, os números indicam que por aqui importamos inflação do resto do mundo por meio da pressão dos preços das commodities, alguns gargalos de produção e os aumentos das tarifas de energia elétrica. Nesta situação o Banco Central se viu impelido a fazer o que está ao seu alcance, elevar os juros e tentar conter a demanda e refluir as expectativas em torno da meta de inflação.

Isto, contudo, parece ser uma parte da história. Segundo o último relatório Focus divulgado pelo Banco Central, pós a guerra da Ucrânia, a taxa de juros real projetada para 2022 é de 5,9% a.a. (Selic de 12,75% contra IPCA de 6,45%) e para 2023 ela está estimada em 4,9% a.a. (Selic de 8,75% contra IPCA de 3,70%). Olhando para 2023, são juros reais projetados elevados quando se considera que a inflação esperada, embora acima da meta de 3,25%, ainda está dentro do intervalo de tolerância e carregando um histórico pressionado.

Os indícios são de que a elevação prematura e intensa dos juros pretende debelar além da inflação causada pelos choques de oferta, também os efeitos da deterioração das expectativas causada pela ausência de compromisso de Governo e Congresso com a questão fiscal e as boas práticas de gestão da coisa pública e / ou governança.

Há um ano assistimos ao primeiro embate do Presidente da República com a Petrobrás. Uma celeuma sobre o preço dos combustíveis e uma clara intervenção na companhia, com contornos de abuso de poder de controle para atender a fins eleitoreiros, em detrimento dos minoritários. O episódio resultou na demissão do presidente da empresa à época.

Por volta de meados do ano passado a convergência de dois fatores ajudou a abalar a confiança e as expectativas. A fragilidade do Governo o empurrou para uma aliança fisiológica, alimentada por recursos públicos, ao mesmo tempo que a aceleração da inflação causou uma ilusória percepção de melhoria na relação dívida/PIB. A sensação de que a situação fiscal não seria tão ruim aparentemente foi uma senha para abrir a torneira.

De lá para cá o Congresso aprovou fundo partidário, fundo eleitoral, referendou emendas de relator, etc… Uma festa.

Pouco depois, veio o evento da PEC dos precatórios, um marco sobre como descontruir expectativas. Em uma canetada, com amplo apoio do Congresso, o governo de bandeira liberal e defensor do cumprimento dos contratos articulou e trabalhou pela aprovação de uma lei que instituiu um calote.

O ano de 2021 terminou como começou, com preços dos combustíveis em alta e uma mobilização intensa para que a Petrobrás revisse sua metodologia para aumento dos combustíveis e as eternas acusações de falta de sensibilidade com as necessidades da população.

Estendo para este início de 2022, nos últimos meses assistimos mudança no ICMS sobre combustíveis, subsídios ao gás de cozinha, proposta de ajuda a caminhoneiros, e por aí vai. Um verdadeiro vale tudo com dinheiro público para atender grupos de interesse e atingir fins eleitoreiros.

Nessa seara ainda poderia listar renúncias tributárias como o Fies, corte de IPI e o anunciado corte do IOF para pequenas e médias empresas. Parece que enquanto o Banco Central está tentando abaixar a fogueira o Governo está jogando álcool.

Passado exato um ano, novamente o embate com a Petrobrás. O aumento do preço do barril do petróleo, intensificado pela guerra, detonou um reajuste nos preços dos combustíveis, que estavam parados há mais de cinquenta dias, e mais uma vez as pressões pela demissão do Presidente da Petrobrás voltaram ao palco.

A moral da história é que falta ao Governo e ao Congresso convicção sobre os princípios da boa prática de gestão do orçamento e sobra apetite para gastar recursos em busca de votos e reeleição.

A impressão que se consolida no mercado é que em ano de eleição pode não haver limite para manobras, truculência, pedaladas e outras tantas artimanhas para gastar recursos em busca de um novo mandato.

Nesse sentido, e para terminar, o recente pacote de empréstimos para o setor elétrico articulado pelo Governo para evitar aumentos maiores nas contas de luz neste ano preocupa. Como os consumidores pagarão por estes empréstimos a partir de 2023 e ainda arcarão com os juros, este arranjo somente retarda e onera os supostos beneficiados.

Em meio a tantos truques de ilusionismo, as expectativas se deterioram. O juro real é o preço a ser pago.  


Hudson Bessa

Sócio da HB Escola de Negócios

Especialista em fundos de investimento e processo decisório

hudson@hbescoladenegocios.com

www.hbescoladenegocios.com

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